VIRA-CASACA
Eu não entendia metade das coisas que os cariocas diziam quando cheguei no Rio de Janeiro, no finalzinho de 1996. Barreira de idioma, barreira de idade... Toda hora, um muro novo me impedia de me encaixar; porém, rapidamente eu descobri que havia um assunto que unia a todos. O Flamengo. Eu só precisava saber dois nomes, Zico e Romário. Pronto, todos me aclamavam, veja ela, a gringuinha e tão pequena já flamenguista! Que alegria! Que orgulho! Tira foto daqui, escuta história de Maracanã dali....
Você sabe o que são cem mil pessoas, minha filha? O chão tremia, o bairro tremia, o Rio de Janeiro tremia! Duzentos mil! Gritava alguém lá no fundo, dizendo que na verdade o público do ilustre estádio carioca já foi muito maior. E então se instaurava o debate de quem viu qual jogo ou onde estava em cada momento; era uma discussão sem fim. E eu ali ouvindo tudo sem entender absolutamente nada.
O Flamengo sempre foi a receita do sucesso para qualquer conversa no Rio de Janeiro. A cura para os silêncios desconfortáveis, pra mudar o rumo da conversa que não estava agradável, era quebra de gelo com os desconhecidos e até uma forma de evitar falar algo muito inapropriado no momento errado, bastava substituir qualquer coisa, chegar do lado de qualquer pessoa e dizer: Mas e o Flamengo, hein?
Minha camisa do Flamengo me salvou de muita coisa, eu confesso. Por mais besta e gringa que eu soasse, no fim, eu era engraçada, compartilhava meus biscoitos e usava camiseta do Flamengo o tempo todo. Quem não ia querer ser amiga dessa criança? Eu assistia aos jogos do Flamengo só pra ter assunto com as pessoas.
Com o tempo, alguns primos mais velhos foram crescendo e acabei herdando camisas originais de times internacionais que eu ostentava com orgulho a cada ida à praia ou ao shopping. Camisa de time, short e chinelo, ninguém pensaria que eu era gringa. Aos quinze, eu já tinha vivido a maior parte da minha vida no Brasil e ainda assim muita gente me chamava de “Americana”.
Fosse na escola, fosse na família, fosse em qualquer lugar acompanhada de qualquer pessoa que me conhecesse, ao ser abordada por absolutamente qualquer estranho, um dedo apontava pra mim e dizia: Ah, ela é americana. E lá ia eu revirando meus olhos para explicar de novo que cheguei aqui criança e meus pais são brasileiros e blablabla....
Na adolescência, eu tinha duas skins: uma delas era uma roupa inteira preta, cheia de spikes, com maquiagem trevosa; a outra era meu tradicional traje de carioca. Até hoje não encontrei muito bem o meio-termo.
Mas à medida que eu fui melhorando meu português e minha interpretação do que era viver no Rio de Janeiro, eu já não precisava mais recorrer ao time rubro-negro como um recurso, pois após oito anos vivendo aqui eu já estava versada em outros assuntos, já conhecia todas as gírias, já tinha me machucado jogando futebol, já tinha ido a bailes funk e sofrido umas dez insolações. Eu já tinha assistido uns três arrastões e remendado inúmeros chinelos havaianas, meus e dos outros. A quem possa interessar, esse foi o tempo que eu levei pra me tornar uma carioca: oito anos. E então algo mudou.
Eu comecei a me ver rodeada de botafoguenses. Minha melhor amiga era botafoguense, minha professora preferida era botafoguense, eu estava mais próxima da minha avó, que também era botafoguense. E um belo dia eu arrumei um namorado botafoguense que me fez a fatídica pergunta: tá, mas por que você torce para o Flamengo?
Pensei um pouco, minha mãe diria que o Flamengo estava no sangue, mas ela mesma era filha de botafoguense e a única coisa que importava pra ela era odiar o Vasco. A verdade é que eu não tinha uma resposta e simplesmente disse que herdei o time.
Na época, eu ainda não tinha feito terapia suficiente para entender que o Flamengo foi uma das coisas que me salvaram de enlouquecer do tanto de perguntas que as pessoas me faziam sobre minha americanidade na infância, perguntas para as quais eu não tinha resposta. Era horrível ser uma criança estrangeira numa época em que ainda não havia internet. Não existia tradutor online, e toda hora aparecia alguém me pedindo pra falar algo em inglês. Eu balançava a cabeça, feito um papagaio, traduzindo o que eles queriam que eu dissesse.
Em 2006, o Botafogo me chegou como a oportunidade de fazer parte de um grupo de pessoas que realmente escolheram estar ali, torcendo por um time que já não ganhava há muito tempo. Um grupo de sonhadores e idosos, não necessariamente nessa ordem.
E veja só que surpresa, entre as camisas herdadas dos meus primos, encontrei uma velha camisa do Botafogo, no meio de uma pilha de roupas doadas.
Num domingo qualquer, eu guardei a camisa do Flamengo numa gaveta, customizei a do Botafogo para combinar mais comigo e pronto, virei botafoguense.
Naquele mesmo ano, como forma de agradecimento, o Botafogo ganhou o Campeonato Carioca. Exatamente dez anos depois de minha chegada no Brasil e nove anos depois de ganhar um Campeonato Brasileiro. Sim, ele fez de tudo pra eu desistir do Flamengo ainda no começo, lá em 1997, eu só não sabia mesmo.. (inserir Pitty cantando: eu estava aqui o tempo todo, só você não viu...)
Eu nasci pra ser botafoguense. O Botafogo ganhou o campeonato carioca quando eu cheguei no mundo em 1889, e mais uma vez quando virei a casaca, pra provar que eu estava finalmente fazendo a escolha certa. Os sinais não mentem.
Desde então, muita coisa mudou e, quase vinte anos depois de eu começar a torcer por este time, hoje o Botafogo é campeão da Libertadores, foi destaque no Mundial da Fifa e se tornou um dos times locais mais famosos do mundo. Com direito a Snoop Dogg vestindo a camisa e tudo mais! Que alegria! Que orgulho!
A cura para os silêncios desconfortáveis, pra mudar o rumo da conversa que não estava agradável, é a quebra de gelo com os desconhecidos e até uma forma de evitar falar algo muito inapropriado no momento errado, basta substituir qualquer coisa, chegar do lado de qualquer pessoa e dizer: Mas e o Botafogo, hein?

Julho de 2025




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