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DO OUTRO LADO DA RUA

9 de jul.
4 min de leitura

Ainda tenho muito que aprender sobre as marés, sejam elas de mar, de sorte ou de política.

A maré do mar daqui de Maceió é bem tranquila; apesar de subir e descer o tempo todo, ela faz isso sem muito alarde, trabalhando em silêncio. A maré de sorte, torço para que esteja sempre comigo e a maré da política...

...

Dizem que finalmente estamos na zona cinza, uma fase de transição entre a proibição e a legalização. Está sendo uma longa e árdua trajetória para suspender a proibição de uma planta. Sim, uma planta, daquelas que você joga uma semente no chão e ela nasce, com autorização divina, porém não da legislação brasileira, que permanece mostrando as carinhas pálidas do conservadorismo racista que ainda assola nossas lideranças que trabalham com lentidão e descompromisso com a saúde, segurança e envolvimento social. Ao passo que outros países decolam em pesquisas e aplicações visando o bem-estar da população, o Brasil, ainda vive às sombras das ruínas de uma ditadura classista e preconceituosa.


Enquanto os maiorais não decidem, milhões de pessoas que teriam tratamento mais barato para suas doenças continuam fazendo uso de fármacos caríssimos com inúmeros efeitos colaterais físicos e financeiros que pouco interessam aos donos do capital, imunes a todo e qualquer efeito colateral desde sempre.  


Pois bem, no auge do meu privilégio branco, eu trouxe da Bahia o suficiente para me durar dois ou três dias. Rumo à Paraíba, onde meus conhecidos já estavam com o mapa da mina e até a mina em si, passei por Maceió, onde, a princípio, não parecia ser um lugar em que eu iria ter dificuldade para encontrar a planta. Ledo engano, ao final do terceiro dia eu só havia visto de relance um pai de família, dois adolescentes e um moço solitário fumando algo que me pareceria suspeito.


Coisa que no Rio, em São Paulo, no Espírito Santo e na Bahia são uns quatro fumantes para cada quarteirão, dependendo do bairro. Como foi possível eu andar quilômetros, cruzar a cidade e achar apenas um mísero fumante? Preocupei-me e fui pesquisar na internet, onde encontrei um comerciante pouco amigável que disse que me venderia algo, mas se recusou a me dar explicações.


Indaguei-lhe se não havia uma praça, praia específica, um cantinho, beco ou sequer uma boate de reggae! - Não tem lugar pra ficar chapado nessa cidade, moço? Ele não quis me responder, e eu não quis me conformar.


Saí do hostel à caça, munida de um paulistano de um lado e uma argentina do outro, dois voluntários, que eu tinha acabado de conhecer na hospedagem.  Vamos andar, eu disse, vamos andar! E fomos: eu, meus comparsas e minha petulância de quem quase sempre consegue o que quer.


Duas ruas adiante eu vi um grupinho de homens e pedi pro casalzinho do hostel ficar para trás. Atravessei a rua e cheguei perto, mas eles não estavam fumando. Poucos metros adiante, outros dois rapazes estavam embaixo de uma árvore com um cigarrinho mais suspeito. Cheguei bem na cara de pau: - OI tudo bem, isso aí que você está fumando....

Dez minutos depois, eu caminhava triunfante, junto com os rapazes, para encontrar o fornecedor, que, muito simpático, nos convidou para fumar com ele. É incrível como os maconheiros se ajudam nesse mundo.


Eu, muito contadora de histórias que sou, desatei a falar feito uma matraca. Papo vai, papo vem, chegou mais gente, eu ali finalmente descobrindo como vivem e o que fazem os alagoenses que gostam da plantinha. Lamentei-me sobre dificuldades de fazer amizade com os locais: — Mas tirando isso, que água deliciosa! Melhor água de torneira que eu já bebi, sim. – E davam mais risada.


Eles me perguntaram onde eu estava hospedada; eu falei do hostel e eles sequer sabiam do que se tratava, ficando horrorizados ao saber que os viajantes dormem amontoados em beliches. - Todo mundo no mesmo quarto, é? Sim, eu respondi, todo mudo junto... 

Me perguntaram onde era o hostel. Tentei explicar que caminhei duas ruas pra lá, depois mais duas ruas pra cá. Não deve ser muito longe. No máximo uns quatro quarteirões....

Eu e meu pobre senso de direção, todo mundo chapado e ninguém pensou em abrir um mapa.


Comentei que fumava na porta do hostel por falta de um lugar melhor e eles disseram que eu podia ir ali onde eles estavam, que era um lugar tranquilo e que estavam sempre fumando por lá… Pronto, encontrei meu cantinho; era só uma questão de aprender o caminho… e retomamos o debate sobre onde poderia ser o tal hostel, até porque eu teria que voltar!

Eu sabia que era perto de uma praça; falaram dez nomes de praças e eu não reconhecia nenhum...


Conta história do Rio de Janeiro daqui, fala de praia e Maragogi dali. Viagem pra cá, loucura pra lá ... Planos de São João... E nada de descobrirmos onde ficava... Já estava quase na hora de ir e eu ia ficando preocupada quando, no meio da conversa, um deles começou a gargalhar, se dando conta de que o hostel era bem ali, quase na nossa frente, do outro lado da rua.


A maré pode até ser baixa, mas a onda é alta!

Obrigada Maceió!

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