NÔMADE 2
Me sinto um daqueles pintores que montam seus cavaletes ao ar livre contemplando as paisagens que eles pintam; analiso como bate o sol naquela folha e penso exatamente como eu gostaria que a sombra daquela árvore ficasse perfeita, porém o sol muda de posição e as sombras também. Tento pincelar cada momento, cada detalhe de tudo o que tenho vivido. Tanto na memória, quanto nos meus textos e nas fotografias que carregarei na minha velhice mostrando o quanto eu era linda e feliz. Outro dia havia um gaúcho impressionado com o fato de eu dar gargalhadas batendo papo às sete da manhã!
Assim eu me queria, ao ar livre, escrevendo, ouvindo o som do farfalhar das folhas, acompanhada de uma gata, morando num vilarejo de aventureiros.
Ontem, enquanto nadávamos numa praia azul turquesa onde vivem os golfinhos, perguntei para um viajante de São Paulo, "Você está sentindo esse cheiro?" Sim, ele respondeu. É cheiro de paz.
Ninguém te ensina a ser nômade, é uma questão de alma. Num dia, você está de bem com a vida comum, com o ônibus lotado, com o Uber pra driblar o trânsito, com o medo de ser assaltada o tempo todo, com os amigos distantes, com as conversas vazias, com a falta do vigor existencial. No outro acontece alguma coisa e você pensa: o que eu tô fazendo da minha vida? Daí começa a rolar uma falta de ar constante tão forte que você só consegue respirar aliviada a mil e duzentos quilômetros de distância. Porém, ainda precisa rodar mais uns mil quilômetros só pra ter certeza de que já dá pra parar, deitar uma barraca por ali e ficar em paz. Sem medo, sem pressa, sem hora e sem planos nem lugar pra voltar. Hoje o meu lugar é aqui, num camping, em Pipa, rodeada de pessoas que, assim como eu, fizeram da inquietude uma forma de viver.
De onde você está vindo? Pra onde você vai? Você mora aqui? De onde você é? Qual o peso da sua bagagem? Por onde você já passou? Você tem barraca? Há quanto tempo está na estrada? Pra onde você queria voltar? Pra onde você jamais voltaria? Tá viajando por quê? O que você acredita da vida? Qual sua filosofia?
São muitas as perguntas e maior ainda a quantidade de respostas. Em cada pessoa um mundo; em cada bagagem, uma vida. A gente escuta história triste, história feliz, história curiosa, história sem pé nem cabeça, história pra boi dormir, história que parece mentira e história que parece a nossa. No fim, todos os nômades e viajantes se parecem um pouco, e se reconhecem nos encontros, que mais parecem reencontros (de outras vidas e outras estradas), e nas conversas que têm começo e meio, mas nunca um fim. A gente só para de falar porque arrumou outra coisa mais urgente pra fazer. Como diria o brasiliense da barraca em frente à minha: "Eu sou de pessoas."
Na cozinha (sempre ela) é onde mais nos vemos, falamos do dia, dos passeios, do que gostamos de fazer, das nossas antigas cidades, fazemos comida e fazemos planos. Quando a gente menos espera, alguém assa um bolo fresquinho e todo mundo fica ali se deliciando não só com o sabor do bolo, mas com o sabor de estar vivo.
Todas as escolhas que fizemos até hoje nos trouxeram até aqui, para que estivéssemos nesse local, ao mesmo tempo. No mês de julho, em Pipa. Cada um numa estrada diferente, porém todos no mesmo lugar.
Aprendi que o nomadismo não é exatamente sobre se mudar o tempo inteiro, mas também sobre ficar onde a gente é necessário, onde a gente sente que tem vida pra viver, coisas pra conhecer, olhares para encontrar, reconhecimentos e sonhos que ainda estão por vir. Onde encontramos vontade de acordar mais cedo para aproveitar o dia. O lugar em que a gente tem gosto de existir.
Ainda assim, tem uma galera em movimento. Estou esperando a passagem de um conhecido que está de estrada pedalando desde Curitiba e já chegou no Espírito Santo; outro que veio de São Paulo e está indo rumo ao Maranhão, mas já chegou em Pernambuco. Imagina: subir numa bicicleta e ir embora...
Entre os sem roteiro, além dos que percorrem as estradas de bike, também tô conhecendo a galera do motorhome. Era coisa que até então eu só tinha visto em filme e na internet. Uma casa inteira dentro de um veículo. Isso sim é comprometimento em nunca mais parar, haja amor pela estrada. O casal de baianos carrega até berimbau! E estão circulando pelo Nordeste numa Kombi fofa chamada Olívia, que tem tudo o que você pode imaginar lá dentro, vivendo livres por aí, criando conteúdo pra internet e vendendo café. Achei chique.
Minha nova amiga argentina me disse que também pensou em fazer isso, mas alguém perguntou pra ela: tem certeza de que você quer mesmo essa vida? Viajar pra sempre?
Questão proposta, a verdade é que ninguém sabe. E estar em contato com a própria intuição muitas vezes vale mais do que uma tarde inteira olhando pro Google Maps pensando, pra onde será que eu vou?
Sem mais nem menos, meu conterrâneo e vizinho resolveu subir na Kombi dos baianos e seguir viagem com eles. O coração chegou a apertar quando olhei pro canto e a barraca dele não estava mais lá. O brasiliense sentiu falta dele também…
Mas é isso: somos nômades. Às vezes, dá mesmo uma coceira; a gente pensa em arrumar mochila de novo, juntar tudo e tchau, algumas vezes, para perceber, alguns quilômetros adiante, que deixamos algo pra trás.
E dessa vez era saudade.
Rodaram juntos até o Ceará e pararam em Canoa Quebrada. Os baianos vão seguir adiante com a Olívia, mas o carioca resolveu voltar... Veja só, amanhã vai ter outro bolo pra gente comemorar!




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