A RECEITA

Eu nasci numa viagem. Minha mãe havia ido para os Estados Unidos trabalhar por um tempo e meu pai também. Se conheceram em Miami e eu nasci por lá.
Anos depois, minha mãe resolveu voltar para o Brasil. O retorno dela foi minha primeira partida. E assim eu me tornei uma viajante, pegando carona na viagem alheia.
Cresci carioca, só que de Miami, e foi na minha viagem ao Chile que eu me dei conta de que havia muitas pessoas como eu. Pertencente a vários lugares e, ao mesmo tempo, a nenhum. Somando seis anos de Estados Unidos, um de Colômbia e quase trinta anos de Brasil! Soy solamente una chica sudamericana! E agora estou conhecendo o meu nono estado desta viagem: a Paraíba!
Fiz um trajeto bem tranquilo de Maceió para João Pessoa, ansiosa para encontrar uma amiga que conheci na Bahia e que me fez o convite.
Eu tô amando essa vida de nômade, chegando e partindo, pouco ficando, amante da estrada, navegante das águas intranquilas, seguidora de estrelas que mapeiam o céu! kkk
Calma aí, que eu tenho emprego e nem tô viajando tão hardcore assim, só vou pra lugares que têm um bom Wi‑Fi porque nasci viajante, não herdeira.
Cheguei em João Pessoa ou Jampa (pros mais íntimos), pensando na quantidade de museus que ia visitar, jornais e livros que eu ia ler, músicas locais que eu ia ouvir, apreciar fogueiras e fazer longas leituras na praia...
Corta pra mim, acordada às duas da manhã, jogando um jogo de cartas dificílimo chamado câmbio, com o grupo de viajantes mais aleatório que um hostel é capaz de reunir, rindo até doer as bochecas.
Se fui triste, não lembro; se tive depressão, esqueci. Vim parar num hostel onde toda hora tinha alguém do meu lado puxando um papo, um baseado ou algo pra beliscar. Tinha até uma horda de cariocas. Impossível não se divertir!
Na primeira noite, um jantar à luz de velas. Na segunda, outro evento. Cada dia era uma história, uma fofoca, uma playlist mais intensa que a outra e daqui a pouco trinta vozes cantando a mesma música em ambientes diferentes da casa, formando um coral. Coisa linda de se viver!
Não vi um museu sequer, mas me vi pegando uma carona pra Campina Grande, indo conhecer o maior São João do mundo. Quando dei por mim, estava assistindo a ninguém menos do que a Elba Ramalho no palco, cantando: Olha pro céu, meu amor, com fogos de artifício explodindo na frente de uma chuvinha fina que ainda nos permitia ver algumas estrelas... Chorei de emoção.
Foi um dos momentos mais incríveis da minha vida. É o tipo de roteiro que eu não teria tido a ousadia de escrever, tal qual a noite de réveillon que passei num barco chileno; minha virada de São João em Campina Grande foi uma das melhores noites da minha vida e tenho um total de zero fotos de ambos os eventos. Quem viveu, viveu.
Quanta festa, quanta música, quanta gente.
Que comida boa é essa? Me passa essa receita? Será que eu tô vivendo um sonho? Foram algumas perguntas que fiz com frequência na Paraíba.
E me dei conta de que o tempero lembrava o do Rio de Janeiro, pois muitos dos cozinheiros de lá são paraibanos. Me senti em casa, em família, em gratidão. Recobrando um já perdido senso de comunidade e pertencimento, com refeições coletivas, brincadeiras e intimidades. Eu me envolvi naquele lugar, naquele hostel, naquela vida, naquele momento. Num mundo enfeitado de bandeirinhas e balões. Onde se dança forró na cozinha e se toma cafezinho fresco com pamonha feita em casa.

Pamonha feita em família, não existe nada melhor. Chorei de emoção de novo. E dá-lhe terapia em grupo e dá-lhe mais jantar com velas, e dá-lhe choro, e dá-lhe riso, e dá-lhe textos de reflexão filosófica e dá-lhe novos integrantes, e dunada, gente que vai embora...
A vida de viajante tem seu lado dolorido. É difícil dizer adeus a alguns lugares e a algumas pessoas. O coração precisa estar com a saúde em dia para viver o baque da realidade onde seguir em frente não é somente pensar em outra coisa, mas sim ir para outro lugar, viver outra vida, construir outra história, com outra família, beber outra água, com outro sabor, nadar em outro mar. Entender e aprender com outra maré.
Viajantes, nos encontros e desencontros, nas chegadas e nas despedidas e nos momentos de aflição; sim, eu perdi mais um celular, só que dessa vez eu estava preparada, não pelejei, só chorei um pouco. Comprei outro e fiquei mais pobre, porém, enquanto o saldo do banco diminui, o saldo de plenitude existencial e felicidade só aumenta.
Dançar, cantar, comer, rir. Fumar, beber, desabafar, ouvir, compartilhar, jogar cartas e pegar uma prainha. Dançar mais um pouco...
Não necessariamente nessa ordem, e nem se sabe as quantidades exatas, ou os outros ingredientes envolvidos, mas na Paraíba, se guarda uma receita tão secreta quanto a do hambúrguer do siri cascudo; aqui se guarda a receita para ser feliz.

Junho de 2026




que leitura mais aconchegante ❤️
Ameiiii muito!!!!