TIO PATINHAS

Acordo numa quarta-feira para coar um café e escrever. Acendo um cigarro e busco a inspiração olhando pela minha janela. Ela pode estar ali, ela pode estar em qualquer lugar. Não encontrei, mas sei que no Bar Condessa toda quarta-feira é o dia da língua assada, quem sabe a tal inspiração esteja por lá.
Munida de fones de ouvido e um par de óculos escuros; acho que com esse look todo mundo se sente um pouco mafioso. E lá vou eu descendo o morro, como se estivesse caminhando com muitos segredos sórdidos, ouvindo rap em espanhol, até que chego na porta do bar e, lá dentro, vejo o garçom que sempre me atende. Sem que eu precise tirar meus óculos, ele sabe o que deve fazer. Acena com a cabeça e eu aceno de volta, no nosso ritual de cumplicidade silenciosa. Nenhum de nós diz nada, o burburinho dos outros clientes e a música do bar misturada com a musica dos meus fones é o que soa ao fundo.
Nem preciso entrar; na calçada mesmo eu fico, de pés espaçados e acendo um cigarro enquanto espero. Vejo, do outro lado da rua, a praça movimentada, crianças saindo da escola e gente atarefada pra lá e pra cá. Olho para o alto a mirar o céu, perfeito e azul como na canção de Charlie Brown... Lembrei do passado. No fundo da memória ainda consigo ouvir aquele orelhão que costumava tocar incessantemente até que alguém atendesse.
Vejo pássaros voando, e os sigo com o olhar até pousarem uma banca de camelô no momento em que passa uma senhora com suas compras de feira...eu amo este lugar.
Uns segundos depois de atirar a guimba no cantinho das guimbas (que existe em toda porta de botequim), me viro de volta para o bar, levanto a cabeça e de novo troco olhares com o garçom, dessa vez ele já tem a sacola em mãos contendo a marmita embrulhada no papel rosa, como antigamente. Ele sorri, eu sorrio de volta, ele me entrega a máquina e eu passo o cartão, momento em que finalmente falo algo: Obrigada, amigo e ele agradece de volta, afinal, algumas coisas precisam ser ditas. E vou embora.
Quando alguém se levanta em seguida e vai até o balcão para pagar a conta do almoço, uma surpresa, o mesmo garçom diz: não precisa, seu almoço já está pago. Como assim, diz o cliente?
É que em vez de pagar meus dezessete reais da porção de língua, eu passei mil no cartão e garanti o almoço de quem estava lá, a gorjeta dos garçons e as quatro doses de pinga de um moço sentado lá no fundo, e só tinha dinheiro para pagar duas. Ele estava até planejando um jeito de ir embora despercebido. Já pensou na alegria de todo mundo?
Pois é...
Essa quarta-feira ainda não chegou, mas vai chegar um dia. Enquanto isso, eu volto para casa com minha quentinha, meus sonhos e minha pose de mafiosa. Passo a tarde trabalhando no computador até ficar vesga, enquanto belisco pedaços de língua assada e beberico chá.
Cheguei em casa pensando: por que eles não são assim? Os ricos. Eu queria entender qual é a graça dessas pessoas existirem se elas não vão simplesmente andar por aí ajudando as outras.
Enquanto o capitalismo é um império e pano de fundo das nossas histórias, os ricos são os reis, e eles também poderiam ser os super-heróis, mas em vez de compor uma parte da população, como diz a estatística, eles vivem em sociedade à parte.
Eu quero saber cadê o milionário do bairro, sabe? Tem rico de todo canto que já foi pobre. O cara enfrentou fila de merenda na infância e depois não senta pra comer uma feijoada no bar do centro da cidade pagando cerveja pros fiéis... É de lascar, sabe? A ingratidão...
Prefere contratar um chefe chique pra ir na mansão dele fazer comida pra um bando de gente rica que não entende nada nem de samba nem de feijoada, contrata um grupo de pagode famoso e gasta milhares de reais pra ouvir música ao vivo numa cobertura isolada pra uma porção minúsculo de gente, ao passo que com aquele mesmo dinheiro ele consegue fechar uma quadra na comunidade fazer churrasco pra umas cem pessoas, comer feijoada, sambar com gente que sabe sambar, viver um pouco a vida real e ainda dar um público de verdade pros artistas.
Eu não me conformo com o fato de que eles simplesmente não saem distribuindo dinheiro. “Ah, porque não se deve dar o peixe, se deve ensinar a pescar.” Isso é mentira, até porque a lógica de ser um dos ricos é justamente a de ser o dono do mar inteiro, então nem sobra muito peixe pra início de conversa.
E dá-lhe cesta básica pra comunidade. Cesta básica? De um milionário? Me poupe. Eu quero é cesta avançada! Eu quero kit churrasco! Eu quero 4 mil Ovos da Cacau Show espalhados pelo centro da cidade na Páscoa!
Eu não tô dizendo que eles não ajudam ninguém, mas é que eu quase não vejo ricos se assumindo de verdade, sabe? Bater no peito. Sou rico, pago mesmo, ajudo mesmo. Vou quebrar tudo e mudar a cara do sistema capitalista! Não, senhor, rico fica quietinho pra morrer velhinho...
Bora gastar esse dinheiro! Sem loteria, sem programa de televisão, sem atenção. De bermuda e chinelo em qualquer lugar, somente fazendo o bem aleatoriamente, sem filmar nem divulgar no TikTok.
Se eu fosse milionária, todo mundo que entrasse na minha casa para trabalhar, ganharia uma bolsa de estudos, não somente os filhos. Oi, tudo bom? Vai trabalhar aqui? Quer se formar em quê?
Se eu fosse ao cirurgião plástico dar uma recauchutada, eu passava junto no orçamento mais uns 7 casos de correção de lábio leporino pra criança. O médico até faria um desconto, tenho certeza.
O tanto de gente que vive no Rio de Janeiro e nunca viu o mar, o Cristo Redentor... Se eu fosse milionária, eu ia ter uma empresa de turismo voltada para levar o público mais pobre para conhecer os pontos turísticos, de graça, com transporte, guia e acessibilidade.
Cadê os ricos? Por que eles preferem viver longe da maioria e o que alguém realmente ganha com isso? Com esse isolamento, com essa falta de senso do que realmente está acontecendo? Por que eles se escondem? Seria medo? Vergonha?
Eu os imagino todos online, tipo ratinhos fazendo aquelas doações misteriosas de 20, 30 mil reais em sites de arrecadação de fundos, olhando as fotos das pessoas doentes e se sentindo um pouquinho melhor com suas existências, usando seus pequenos poderes... Caminhando pomposos como misteriosos doadores que “fazem o que podem”, mas torcem o nariz se veem um morador de rua e não gostam de sentar em lugares que têm muitos pedintes...
O máximo de vezes que já me pediram dinheiro numa noite foi dez! Senta no bar aí, meu camarada! Se eu fosse rica, toda vez que viesse alguém me pedir alguma ajuda na rua. Era no mínimo 100 reais. Me tratou com carinho, toma 200. Tá com criança no colo? Toma 500 e vai pra casa, aproveita e me dá seu número que vou te ligar pra te arrumar um emprego. Precisa de remédio? Minha farmácia, a um toque de distância, mandando entregar aqui em 20 minutos, você pode aguardar?
Tá com vergonha de ser rico? Então mente! Fala, não sou tão rico não, mas fui promovido; é minha boa ação do dia! Quem se importa? Uma vez por mês, coloca uma roupa feia e vai gastar dinheiro no mundo real, pô!
Nada disso faria nem cosquinha no sistema capitalista, sabe? Nem no bolso de gente rica de verdade. Só faria as pessoas mais felizes.
Eu já assisti algumas aulas de economia. Você entende quanto dinheiro algumas pessoas têm? Eu não tô falando daquele pobre coitado que ganhou uma notinha no BBB e nem do querido que deu a sorte no bolão com os amigos e tão dividindo seus milhões viajando por aí... não... Eu tô falando dos ricos de verdade, os Tio Patinhas da vida real. Eles sabem quem são; eu sei que eles existem.
Quando o preço de uma bolsa de grife é muitas vezes o preço de um imóvel. Fica aqui o meu questionamento: O que você faria se você se tornasse um Tio Patinhas?
E não é que me apareceu a tal inspiração?
Junho de 2025




Quando se tem mais que o necessário pode-se construir uma mesa maior ou aumentar o muro.
Estou cansado de muros.