TECNOLOGIA
O mundo não é como a gente vê. Nossa visão, por mais potente, criativa e elaborada que seja, jamais alcançará todos os mistérios do universo. Nem a nossa tecnologia. A tecnologia nada mais é do que uma extensão de nós, ela é um aprimoramento daquilo que nossos corpos se limitam a alcançar. Muita gente já falava dos átomos, mas o conceito era considerado uma loucura, pois não tínhamos como vê-los, até que alguém que entendeu que o olho era apenas uma lente e que ele precisava de uma melhor. Só isso. Então, de lente em lente, de olho em olho, os humanos foram melhorando a nossa capacidade de ver até que pudéssemos, de fato, comprovar, veja, pode olhar, ali estão, os compostos de nossa matéria. Os átomos existem, e hoje os vemos graças à tecnologia. Mas existe muito, muito mais do que eles que a gente não vê. Tá?
Eu faço força para tentar vislumbrar, nem que seja por alguns segundos, como seria enxergar TUDO. Ter a lente máxima, desafiar todas as limitações. Aperto mais a vista... E sempre que faço isso, algo fantástico me acontece. Outro dia eu estava olhando fixamente para a comunidade que fica do outro lado do vale onde moro.
Eu imagino o universo em ondas de energia passando de um lado para o outro, entrelaçando-se. Tento enxergar essas ondas. Tenho certeza de que elas teriam cores, então, olhando para a comunidade em tons de tijolo que se mesclam no verde das árvores, facilita imaginar as tais ondas coloridas que não consigo ver. Aperto mais um pouco a vista...
No filme, Constantine olha para o gato e fala: Perfeito, metade dentro, metade fora. E faz uma magia para enxergar o outro mundo. Gatos teriam lentes melhores que a nossas? Gatos poderiam ser uma tecnologia? Muito antes disso, eu me lembro que, quando criança, no Brasil, ninguém nunca tinha ouvido falar de Constantine, e uma das brincadeiras era pegar remelas dos gatos para passar nos nossos olhos no intuito de que pudéssemos ver os espíritos. Toda hora uma brincadeira dessas: era a loira do banheiro, era a mulher de branco, era o homem da cartola... É que na nossa cultura, convivemos com o mundo espiritual diariamente. Se não são os cristãos falando de anjos e demônios, são os umbandistas falando das entidades e os guarani falando de Nhanderu... De um jeito ou de outro, esses seres fazem parte da nossa vida, das nossas brincadeiras, das nossas imaginações e realidades. Aperto ainda mais a vista...
Quisera eu estudar muito mais além da filosofia: religião, biologia, química e física, a ponto de ser capaz de inventar uma tecnologia que fosse capaz de mostrar o que eu imagino e que lá no fundo eu sei que é real e muito mais complexo do que na minha imaginação. Imagina se a gente pudesse enxergar tudo? As doenças, os sentimentos e até os sinais de Wi-Fi? Imagina se a gente pudesse ver o vento fazendo os pensamentos voar? Aperto ainda mais a vista, tentando enxergar...
E bem ali enquanto eu olhava para o morro, eu vi uma briga de pipas. A mais baixa já estava desistindo enquanto as outras duas ainda brigavam pelo vencedor dos céus. Uma delas se mantinha serena, tentando encontrar seu espaço dentro do vento, enquanto a outra vinha em espiral, subia e descia como se o vento tivesse que encontrar espaço nela. Aquela pipa desafiava todas as regras.
Com que olhos você vê o mundo? Qual é a sua lente? De que ela é feita? Eu li em algum lugar que a melhor maneira de se ver o mundo é com os olhos de turista. Como quem ganhou o bilhete dourado para a fábrica de chocolate, ou uma passagem para o país dos sonhos. Alguém me disse que no mundo antes do nosso, nós temos alguma escolha sobre o lugar onde chegamos na Terra, ou seja, estamos aqui de passagem, turistando, mesmo. Todos sabemos que chegamos e vamos embora, a passagem só não vem com uma data impressa, ou vai ver ela vem, só não somos capazes de enxergar...
O mesmo funciona para a audição. Até poucos anos atrás eu me incomodava com o canto de pássaros (cheguei a escrever uma crônica sobre isso), hoje eu sei que o que me incomodava na verdade era o som dos pássaros dos meus vizinhos e dos zoológicos que os guardavam em gaiolas. Os sons que me incomodavam eram provavelmente gritos de socorro, não o canto deles, entendeu? Eu só não estava escutando o suficiente, talvez o tempo tenha me afinado a audição.
Eu não sei, só sei que existe um outro mundo, que a gente não sente, não vê, não ouve e que talvez alguns médiuns cheguem perto... E os gatos também, pelo visto.
Enquanto eu não tenho como criar uma tecnologia para provar isso, eu deixo aqui a mais recente imagem da melhor lente que o ser humano foi capaz de criar até agora: uma imagem da Lua, e veja só, ela não é branca, nem cinza, ela é colorida! A gente só não era capaz de ver...

FOTO créditos :
@_ibatullin_ildar_
Julho de 2025




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