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MICROFEMINISMO

16 de jun.
3 min de leitura

 

Heather e Giovana não têm nada em comum exceto pelo fato de que são mulheres e irão se hospedar num resort em Orlando. Elas criaram seus perfis no site de hospedagem e fizeram suas reservas para família e amigos, cada uma,em seu nome.

Como parte de procedimento padrão na hotelaria, depois da reserva confirmada, costumamos solicitar a lista dos hóspedes e geralmente enumeramos a lista de hóspedes colocando a pessoa dona da reserva na frente das outras


Para minha tristeza, porém não surpresa, Giovana, a dona da reserva, colocou o nome do marido na frente do dela; Heather, por sua vez, colocou o marido e os pais dela na frente, ficando seu nome em quarto… Não são apenas elas; eu comecei a notar o padrão há muitos meses. São mulheres de diversas idades e países, mulheres dos mais variados tipos.


Quase sempre mulheres. O mais interessante é que os homens praticamente nunca fazem isso; consigo afirmar com confiança (e um pouco de petulância também) que 98% das vezes os homens reservantes se lembram de colocar seus nomes no topo da lista. Já entre as mulheres, os números diferem bastante. É o que minha pesquisa informal revelou.


Essas mulheres negociam reservas, passagens, passeios e roteiros; quem vai, quem fica, a lista de compras, a gasolina do carro, o aquecedor de piscina e, na hora de mandar a lista de hóspedes, o nome do marido vem primeiro. São muitas, tantas que me chamaram a atenção. Olha lá, mais uma oprimida! Exclamo toda vez que me deparo com esse fenômeno, quase diário, do meu ofício de hoteleira. Como é que pode a pessoa ter autonomia para organizar tudo numa viagem e não colocar seu nome em primeiro lugar?


Que criação machista foi essa recebida em que a autopercepção de independência e autonomia é tão limitada que não chega a uma listagem, hein, minha senhora?

Sim, eu fico revoltada.

O que mais me impressiona são os casos em que a pessoa esquece de enviar o próprio nome e depois pede desculpas. É, meus amigos, desculpas por ter esquecido de si.


um print de exemplo de uma conversa em inglês onde a pessoa informa que esqueceu de adicionar o próprio nome

É nessas horas que eu tenho certeza de que o patriarcado venceu, mas eu não me dou por derrotada e revido com tudo o que eu tenho. Tal qual uma formiga revidando num elefante, eu pratico diariamente, com muito orgulho, o meu microfeminismo.


Não, eu não posso dizer que sou uma grande feminista, nem vou perder meu tempo citando aqui alguns exemplos para justificar (leia-se isto depois de eu ter apagado o parágrafo anterior)


Estou errada em muita coisa, porém, mulher oprimida, no meu turno não passará! E sabe o que eu faço? Eu pego a lista e reorganizo bonitinha, deixo enumerada e coloco o número 1 ao lado do nome da reservante, bem dentro do padrão da hotelaria; depois envio de volta com toda a energia de sororidade que existe dentro de mim, clicando com força, canalizando a energia de Simone de Beauvoir, e pedindo para a reservante revisar a lista.


Ali, ela vai entender, ela vai aprender que tem que se valorizar! Vai entender que precisa aprender a se colocar em primeiro lugar. Ela vai sentir, lá no fundo, que aquela lista é uma mensagem para olhar mais para si e não se permitir mais ser ocultada pela sombra do patriarcado; vai sim! Eu tenho fé.

E clico com força para enviar, na esperança de que entre as milhares de hóspedes que já atendi, ao menos uma viu seu nome corrigido lá no topo da lista e pensou, ainda que secretamente:  Que merda, hein?!


É pouco, mas é o que eu tô dando conta de fazer. Antes um microfeminismo do que nada.

Agora junte todas as formigas pra ver se a gente não derruba o elefante!

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