RÓTULOS
Um pernambucano perguntou sobre a minha tatuagem no ombro escrita em latim: sim, está escrita errada. Por quê minha tatuagem tem que ser perfeita, se eu mesma não sou? Os rótulos que a gente carrega, né? Acho que tenho até uma lista dos meus...
“Um estudo dos fundamentos éticos e morais dos movimentos sociais Punk e Hippie, suas semelhanças e influencias na sociedade brasileira contemporânea”. Achei chic. Mais um tema pra outra longa lista, a de projetos de pesquisa para minha inscrição no mestrado...
Eu estava hostel de Itapoã. O paulistano pegou o celular para mostrar à espanhola uma bela praia, na Bahia, que tinha para recomendar. Ela viajava com o namorado colombiano. – É a cara de vocês essa praia, dizia o paulista. Tem uma vibe meio hippie – ele dizia ao ser interrompido por ela.
- Hippie, não, assim você me ofende! Que isso, meu mano? (no puro sotaque paulistano, como quem caçoava do dele), Hippie jamais, eu sou muito mais punk do que hippie.
Mas punk e hippie lá têm muita diferença? Pensei, enquanto assistia de longe, rindo de canto, reparando no espanto dele ao perceber a reação ofendida dela. Na minha opinião, não tinha nada demais. Eu me lembro dos punks: eles queriam o fim do capitalismo, anarquia, autocracia e liberdade, queriam fumar em paz, ouvir música e mudar o mundo, nem que fosse na base de soco e Molotov. Não era isso?
A gente se encontrava nos fundos do Shopping Iguatemi no Rio de Janeiro e ia caminhando até o garage onde os punks bebiam, brigavam, xingavam, quebravam coisas e existiam em sua plenitude. Os mais novos, como eu, apenas ratos na sarjeta esgueirando tentando pertencer no meio daquela névoa de cigarros, pois os verdadeiros ratos do porão ainda tocavam no porão do velho garage, e eu era nova demais para entrar... Hoje eles são como uma vaga lembrança, mas ainda os vejo em toda parte estampando as paredes das capitais por onde eu passo.
Os hippies ainda estão por toda parte, tô sempre trocando ideia com alguém e levando artesanato de presente. Adoro; tenho chaveiro, aneisinhos em formato de flor e marcador de página, todos feitos na hora, no meio da rua... Os hippies estão meio vivendo numa dimensão mental paralela onde acreditam que seja possível estabelecer autocracia e liberdade agora mesmo, sem muita luta. A sociedade alternativa. Desapegados dos princípios capitalistas, não estão preocupados em contribuir, tampouco estão interessados em derrubar o sistema, vivem pelas ruas e comunidades, fazendo artesanato e vivendo com o mínimo. Será que só eu reparei que eles são praticamente iguais aos punks, só que um é paz e amor?
Já cantava Cazuza: Ideologia... eu quero uma pra viver...
São tantas… Não é meio que um, tanto faz? Imagino a lista de rótulos me encarando...
Penso que,no fim, ambos os movimentos sociais querem contestar padrões e promover mudanças. Não é a mesma cura, porém com remédios diferentes? Por que ela se ofendeu? Era aquilo que eu queria entender... Mas será mesmo que dá tese de mestrado?
Seria um problema de ética ou de estética? Seria uma questão de educação europeia? Vai ver, a espanhola escolheu a batalha dela, não é disso que eles gostam? Guerras? Ri sozinha do meu pensamento enquanto observava as ondas quebrarem na orla da praia bem no momento em que começou um reggae e comecei a dançar... Nada mal ser rasta... Eu sou o quê, mesmo? Procura na lista de rótulos e, quando alguém me pergunta o que eu sou, respondo que sou Vanessa.
Deixei a onda da música fluir e dei um trago no meu cigarro enquanto escrevia uma crônica no meu caderninho, deixando o reggae me balançar. Uma daquelas crônicas para sempre estará inacabada, mas uma hora precisará terminar. Assim como minha temporada em Itapoã que me rendeu ótimas observações, questionamentos, crônicas, poesias, amizades, discussões filosóficas, explicações teológicas, e a quase perda do meu réu primário.
Numa fofoca paralela, algo me incomodava numa uruguaia recém-chegada que não demorou muito para mostrar as garrinhas, acusando uma pessoa negra de roubar um casaco que estava apenas perdido, no meio das coisas dela. Logo ela, que dias antes eu tinha passado uns bons 20 minutos explicando temas de letramento racial e escravidão moderna no Brasil tentando fazer valer minha licenciatura em filosofia...
Ouvindo as maiores barbaridades, eu sentia o ódio borbulhando em minhas veias e procurava ao meu redor algo mais pesado (e menos caro) que o computador que eu estava usando para trabalhar e jogar na cara daquela uruguaia. Eu finalmente entendi a espanhola. Hippie, não, assim você me ofende! Eu amo artesanato, a bomba nuclear é uma merda e o LSD pode até ser uma das melhores invenções da humanidade, mas certas coisas, só se resolvem… tacando uma cadeira na cara da pessoa!
Junho de 2026




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