NÔMADE
Atualizado: 26 de jul.
Cheguei aos 36 anos, com uma licenciatura em filosofia, 3 livros escritos e inúmeras horas de pesquisa, mas ontem eu precisei ouvir que minhas opiniões acerca de mudanças nos papéis de gênero devido a fenômenos econômicos seriam oriundas de “conversinhas de whatsapp”.
Obrigada, meu Deus, pelas impressões de um surfista de 60 anos, branco, de classe média que veio de Natal para pegar ondas em Salvador, provavelmente porque as de lá já devem ter enjoado dele. Eu me regozijo ao saber que ainda tenho propósito nessa vida, nem que seja irritar o patriarcado, pois até outro dia eu estava deprimida jogada numa cama, sem tem com quem falar e achando que eu nunca mais ia ter uma discussão filosófica na vida, mas neste exato momento ou nestante, como se diz aqui, estou numa praia em salvador escrevendo sobre uma briga que tive ontem, enquanto eu aprecio quatro espécimes da mais pura beleza baiana jogando altinha, ao passo que eu fumo um cigarro e tomo uma cerveja escrevendo esta crônica.
Quem me viu... quem me viu... quando vê, já fui!
Desde que inaugurei minha nova condição de nômade, já debati sobre gênero, modos de se viver, intolerância à lactose, música, xenofobia e até racismo. Eu vivi pra isso.
Passei anos na recepção, assistindo aos turistas indo e vindo, ouvindo suas histórias de viagem, e agora sou eu que venho e vou.
No antigo Copinha Hostel, meu primeiro emprego no ramo, uma das minhas tarefas era ajudar a guardar as enormes mochilas dos viajantes em um armário empoeirado sob a escada. Não era todo mundo que cabia lá dentro, nem as malas nem eu, mas de alguma maneira sempre dava certo. Muito solícita e solidária, e também preocupada com a coluna dos meus hóspedes, eu me dispunha a guardar, por conta própria, cada bagagem para então perceber o peso que carregava cada mochileiro e pensar que eu jamais seria capaz de tal façanha...
Corta pra 2026: Rio Comprido, Lapa, Jacaré, São Paulo, Cabo Frio, Juiz de Fora, Vila Velha e agora Salvador...
Quem me viu... quem me viu... quando vê, já fui!
Kael me perguntou: Mas por que Itapoã? Não tinha uma razão. Agora eu sou nômade, e na escola me ensinaram que os nômades usavam tudo o que podiam de um lugar e depois respeitosamente partiam à procura de outro que lhes proporcionasse algo mais…
Além disso, é verdade que a Bahia sempre me remeteu a duas coisas: criatividade e espiritualidade, coisas essas que já me faltavam há tempos, então eu vim procurar. Meus escritores preferidos pisaram aqui, respiraram aqui e daqui beberam essa água. Mesma água que lava as escadas da igreja do Bomfim que abre as portas todos os anos para um ritual de Candomblé.
Aqui eu me sinto em casa e, para mim, não há nada mais chique do que se sentir em casa em Salvador. Se alguém me perguntar, eu venci na vida.
Tudo aqui parece que contém algum significado, e para os significantes como eu, há certo conforto quando há paz na culpa de se viver à procura de sentidos e simplesmente existir. Afinal, viajar é a melhor maneira de encontrar a vida sem precisar procurar.
Eu não canso de dizer que viemos ao mundo sem manual de instruções (também se viesse, quem leria?) Um dos negócios da vida é cada um encontrar seu próprio manual. E os viajantes? Esses encontram-se em vários, enquanto compartilham histórias e estradas e dormem (ou tentam dormir) em quartos compartilhados de 14 pessoas amontoadas em beliches convertendo-se numa espécie de complexa formação sedimentar composta de sonhos , histórias e esperanças.
Na internet eu também acompanho outros viajantes e já ouvi que não é tanto sobre fugir do que já conhecemos, "até os problemas vêm junto com a gente na mochila" @complexica e "nem tanto sobre as partes de nós que vamos deixando por aí" @_noua_, mas também é pelas outras tantas partes que vamos encontrando e colocando na nossa bagagem.
Se perde e se ganha num estado de nomadismo onde, segundo a querida companheira de quarto, Priscilla, "os dias se tornam horas, as horas viram minutos e os minutos se transformam em segundos".
O maior medo não é o do peso da mochila que eu tanto lutava para guardar no armário do Copinha, mas o peso do medo de não aproveitar o suficiente dessa vida que passa voando pela janelinha do ônibus ou do avião e, para alguns mais corajosos, pelo vento de suas bicicletas.
Ontem à noite fizemos um banquete de petiscos, regado a vinho, conversas e planos. Hoje, um casal, composto por uma espanhola e um colombiano, subiu em duas bikes rumo a uma nova aventura. Lhes desejamos caminhos abertos, lhes demos abraços, trocamos contatos, nos emocionamos. Talvez nos vejamos de novo, talvez nunca mais.
A vida que é bem mais longa do que dizem, e o mundo que é bem maior do que a nossa vã filosofia. Vai entender...
Sim, eu estive deprimida, mas, então, eu levantei, sacudi a poeira e peguei minha mochila para colocar o pé na estrada.
E se alguém me perguntar, eu já cheguei na Bahia.
Maio de 2026




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