48 folhas
O bom de envelhecer é que, apesar da vida não vir com o tal manual de instruções, a gente já viu tanta coisa que cria um próprio, nem que seja sobre si. Eu mesma preciso de papel para sobreviver, seja ele higiênico de seda, guardanapo ou ofício. Esse é um fato sobre mim.
Portanto, fui atrás de um caderninho quando decidi que era hora de voltar a escrever. Saí do prédio do Kael, na Lapa, caminhei até a vendinha mais próxima e perguntei por um caderno, somente para encarar a face de horror do jovem atendente, que jamais pensou em ouvir tal pedido pitoresco em sua vida. Agradeci e caminhei mais adiante até outra vendinha onde consegui encontrar um caderninho de 48 folhas, uma caneta e um sonho:
Sentar no botequim para beber e lamentar acerca da vida, pro papel, na falta de ouvidos mais atentos do que uma folha em branco.
Para a pergunta de Rilke a um jovem poeta, a resposta é sim. Se eu nunca mais fosse permitida escrever uma linha sequer, eu morreria aos poucos até que não sobrasse nada de mim.
Dito isso, de setembro a abril eu estive morta, vivi o luto e agora renasci. Logo onde? No bar da cachaça, famosa encruzilhada carioca, na qual jazem muitas partes de mim.
Tal como um personagem de videogame, que quando morre, volta pro último lugar onde o jogo foi salvo. Voltei pro bar, peguei uma cerveja, uma dose licorada de amendoim e sentei para escrever a primeira crônica de minha ressurreição num caderninho minúsculo de 48 folhas.

Maio de 2026




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