MORTE NO CRISTO REDENTOR
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E se o motorista tiver um mal súbito? Penso eu, toda vez que peço um motouber.
Lembro que minha avó falava muito nisso; o mal súbito é quando você simplesmente morre. Pum, caiu, acabou o rolé.
Pode acontecer com qualquer pessoa a qualquer momento, ou seja, as chances de acontecer comigo são as mesmas de acontecer com o motorista da moto e então subo tranquila no veículo que desliza a quase cem por hora, costurando as ruas cariocas, com sentimento de estar burlando o sistema de transporte público segregador e abusivo da minha cidade.
Tudo no Rio de Janeiro inspira alguma estratégia de sobrevivência; logo, a moto me economiza tempo e, muitas vezes, até dinheiro. Por aqui a gente adota várias: é a estratégia do celular pra bandido, é a estratégia do dinheiro enfiado em lugares impensáveis, é a estratégia de escolher bem o botequim pra não tomar cerveja adulterada...
Todo cuidado é pouco pra não morrer por aqui. Não é fácil ser carioca (nem brasileira), ainda assim, vivemos em um dos lugares mais bonitos do planeta, e se não fosse pela violência e pelo nível de desorganização, já tinha vindo mais gente de fora meter o bedelho aqui há muito tempo.
Vivemos no limite, no limite dos preços abusivos, no limite do desespero, no limite da acessibilidade inexistente e no limite da falta de consciência social coletiva, distraídos por névoa de artefatos brilhantes que nos distanciam ainda que por poucos momentos, da nossa própria desgraça. Aqui não é a Disney, mas tem dia que até parece.
Entre os muitos assuntos da mesa de bar, eu e Allan comentamos sobre os pontos turísticos do Rio. Eles são alguns dos nossos muitos artefatos brilhantes. Comentei que vim ao Brasil para passar as férias mais longas da minha vida e trouxe até um vestido para visitar o Cristo Redentor, mas no fim, estou indo embora sem ter ido conhecer a tal atração que, aliás, tem um preço bem salgado.
Descobri que a magnânima estátua é administrada pela Arquidiocese, já o Trem do Corcovado, que sobe monhaha até Cristo, é gerenciado por outra empresa e rolam muitas divergências entre as administrações. O babado é tão forte que quem lida diretamente com a Igreja não pega o trenzinho e tem que subir a montanha de Van (o transporte é mesmo um meio de segregação...).
Lá em cima é literalmente um tal de Deus no acuda, é Cardeal se metendo onde não deve, são investidores com o olho maior que a barriga, e o Cristo Redentor, coitado, de braços abertos, totalmente indignado como quem já cansou de nós faz um bom tempo. Não é fácil ser Cristo no RJ.
O que ninguém esperava era que, contrariando todos os assaltos e tiroteios, estratégias, estatísticas e esquemas, a morte mais inusitada que poderia ocorrer na cidade seria justamente em uma das sete maravilhas do mundo moderno.
Não tem missa matutina que previna o mal subido, diria minha avó. E foi exatamente isso.
O turista chegou no Cristo (ainda não se sabe se de trem ou de van), apoiou-se em um corrimão no final da escada e pum, caiu, acabou, o rolé.
Na internet circula um dos vídeos mais loucos que já vi na minha vida. Um homem caindo morto, seguido por uma sequência de pessoas fazendo massagem cardíaca; mulher, homem e até um padre, daí surge desfibrilador, turista passando, segurança perdido, celular pra todo lado. Mão na cabeça, desfibrilador de novo, e dá-lhe massagem cardíaca, cada um num ritmo... O homem já estava pra lá de morto quando chegaram, quase uma hora depois… Os paramédicos e fim.
Fica a pergunta: seria este turista uma vítima do azar da vida, ou do caos do Rio de Janeiro? Jamais saberemos. Mas não tá nada mal morrer subitamente no Cristo Redentor, viu? Morrer num passeio com a família, despreocupado, gastando dinheiro e curtindo a vida na suposta cidade maravilhosa. Achei que foi chique, e me desculpe pela morbidez. Cazuza pedia a sorte de um amor tranquilo, e eu, depois dessa, quero a sorte e uma morte tranquila também.
Mas e você, já visitou todos os pontos turísticos da sua cidade?
Março de 2025




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