CARIOCA DE MIAMI
- 1 de jul. de 2025
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Atualizado: há 4 dias

Eu ainda me lembro da primeira vez em que te vi. Lá do alto era possível vislumbrar as árvores e as montanhas. Era verdade o que me contaram: tem uma floresta no meio da cidade!
Da de onde eu vinha, só tinha floresta nos meus sonhos. Lá era mar e lago e só. Jacaré pra cá, golfinho pra lá...
Algumas palmeiras...mas a única árvore frutífera que eu tinha visto na vida foi um pé de abacate que plantei com minha mãe no quintal de casa. Minha emoção era comer um brócolis, ah, os meus seis anos de idade...
Quando cheguei aqui, vi que todo mundo andava literalmente à própria vontade, de short, biquíni, chinelo e até vestido de gala. Na praia de Copacabana via-se de tudo, ouvia-se de tudo. Mas o calor, ah, o calor. Este levou o melhor de mim.
Quarenta graus, meu amor? Pra quê tudo isso? Era de tirar o espírito juvenil da criança recém-chegada dos Estados Unidos. Eu ficava parada na frente de qualquer ventilador que encontrasse. E passei a nunca mais querer me vestir.
As piadas, as gírias... Todo mundo parecia estar rindo de alguma coisa diferente e eu questionava se estavam rindo de mim também. Na verdade, as pessoas só estavam sendo felizes e Carioca dá gargalhada alta! Aqui se é feliz, de uma forma muito estranha, como não se é em nenhum outro lugar.
Eu não entendia o dialeto carioca. Eu não entendia como as coisas funcionavam, o porquê de tanta piada maldosa, como é que tinha tanta gente morando na rua, e qual o motivo da Zona Norte ser tão diferente da Zona Sul… Você foi tratando de me ensinar.
Aos doze anos eu comecei a te desbravar sozinha, pegava metrô, pegava ônibus, cruzava a cidade, cruzava a floresta e conhecia algo novo toda hora. O jardim botânico, os museus, as praias... Caminhar pelo centro da cidade sentindo a energia do Rio antigo se tornou um vício à parte.
Minha escola do primário tinha vista para o mar, não consigo imaginar algo mais romântico que isso. Em algumas manhãs, o sol iluminava a sala de aula e parecia que estávamos em algum lugar no céu. Era difícil de enxergar o quadro atrás da professora. Eu amava.
Minha carreira se engatou no turismo, pois era fácil entender o que sentiam aqueles que chegavam aqui de paraquedas. É um misto de horror e encantamento, mas quando qualquer um me pergunta, até hoje eu bato no peito e digo: o Rio de Janeiro é o melhor lugar do mundo.

Em meus anos aqui, nunca falou alguém para chegar perto de mim chorando na praia e perguntar: “Tá tudo bem, colega?” Nunca faltou uma cerveja gelada, nem uma boa piada de botequim. Nunca faltou algo para fazer em qualquer dia da semana, a qualquer hora do dia, sozinha ou acompanhada. Você, Rio de Janeiro, é uma companhia por si só para aqueles que aguentam o seu ritmo.
Carrego no corpo e na alma as marcas da dificuldade de estabelecer uma vida no Rj. O perigo, o preço das coisas, a política...
A gente paga um preço alto para viver no purgatório da beleza e do caos, mas quem sobrevive aqui se sente rei, se senta à beira-mar e ri de pena...
...de quem vive em São Paulo.
Assinado, A Carioca de Miami.
Julho de 2025




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