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SÉRIE: ANEDOTAS - FREIRA NOSSA DE CADA DIA

  • 29 de mar. de 2019
  • 4 min de leitura

Pra princípio de conversa, minha única referência em matéria de freiras é, e sempre foi, um coral liderado pela Whoopi Goldberg, em que um bando de mulheres animadas faz caridade no bairro, canta música pop e bate palmas com a mesma energia de quem tá arrasando no twerk.

Lá estava eu, a primeira da fila, aguardando para ser atendida, quando a freira chegou. Ela tinha um aspecto jovial, as poucas rugas davam-lhe a aparência de ter quarenta e poucos anos no máximo, usava um hábito acinzentado de panos leves e estava acompanhando um jovem seminarista. Sorriu para mim quando chegou.

Até agora não sei por quê, mas cedi meu lugar para que ela fosse atendida primeiro. Imagina, uma freira, passa na frente, lógico. Depois fiquei questionando, de onde eu tirei isso?


Vale dizer que meu contato com a religião católica, em geral, foi bem pequeno; algumas aulas de “religião” na escola resumiam-se a decorar fatos da Bíblia e fazer rezas de vez e quando. Minha mãe protestante, horrorizada com a ausência de laicidade na sala de aula, prontamente escreveu um bilhete isentando-me de tais aulas sob divergência de crenças. Pois bem, o carolicismo parou ali.

Na formatura da quarta série, rolou uma missa. Eu não entendi uma palavra do que o padre disse. Anos depois, já com uns doze ou treze anos, uma coleguinha convidou-me para ir a um encontro de jovens em sua igreja. Fui algumas vezes para acompanhá-la e depois concluí que não tinha a ver comigo. Era minha fase Wicca.



Pois bem, eu e a freira recebemos as mesmas orientações e sentamos para aguardar. A sala estava vazia, a princípio, só havia nós três. Duas horas depois, sala cheia e os olhares vazios à espera do atendimento que parecia nunca chegar. Não demorou muito até que um homem entrasse na sala para dizer que o sistema estava lento, justificando a demora, mas que todos seriam atendidos.


Troquei olhares com a freira e identifiquei o mesmo sorriso de alívio e conformidade, “ao menos não viemos à toa”, disse ela. Fui obrigada a concordar, “pois é, eu estou sem pressa, vim do Rio de Janeiro para fazer isso, não volto sem meu visto”. Ela abriu os olhos de curiosidade e perguntou sobre minha viagem, desatei a falar do frio do ônibus....


O seminarista alado não falava muito, mas descobri que ele estava lá para pegar seu visto para morar no Brasil, enquanto eu estava pegar o meu para ir embora. Um troca-troca de países, pensei. Mas guardei a piadinha suja pra mim.

A freira era a pessoa que acompanhava os estrangeiros e os ajudava a realizar os trâmites. Ela segurava os documentos do rapaz e era a pessoa “responsável” na situação. Ela carregava até um celular para se comunicar com o monastério. Muito importante.


Começamos a falar sobre os nossos países (Colômbia e Brasil), e comparar as comidas e os temperos. Demos risadas com os nomes parecidos que eram de coisas totalmente diferentes. Falamos sobre a infraestrutura das cidades e os governos dos países. Eu contei que queria fazer uma horta em casa, ela contou sobre um prato especial que uma irmã estrangeira cozinhava.

Conversamos sobre os idiomas e como a gente acaba misturando tudo e criando mais uma versão do portunhol. O seminarista fazia um comentário, ou outro, muito simpático, mas quem brilhava era ela. Contando histórias e mais histórias, e me fazendo inúmeras perguntas. Seu sorriso era encantador.


Do jeito que sou, comecei a reclamar sobre a minha cidade, falar mal do prefeito, do governador, contar sobre os milhares de desabrigados e desempregados e esfomeados andando pelas ruas e implorando e roubando. Revoltada, soltei que eu achava, sim, que todas as políticas deveriam ser em prol dos mais pobres, daqueles que não têm o suficiente para sobreviver. E quem estivesse bem e com dinheiro que se virasse sem assistência do governo. E ela balançava a cabeça concordando. Dava para enxergar a revolucionária contida dentro dela dando graças a Deus por saber que o mundo não estava tão perdido assim entre os pagãos.


Em um dado momento, ela lamentou, apontando para o seminarista, “pois é, eles podem estudar, né, a gente não”. Fazendo um olhar de ironia que tornou o ar palpável.

Meu Deus, pensei, uma freira feminista. Será que eu estou sonhando? Não.

Ela repetiu isso, de novo, em outro momento, mas de uma forma tão educada que quase parecia um elogio, mas era uma crítica, uma crítica à instituição católica.

Eu vibrei por dentro! Que mulher, que mente. Quase que ela falou: “pois é, Jesus nunca disse que mulher não podia estudar”. Quase. Faltou bem pouco.


Do nada, o seminarista colombiano que até então pouco ou nada havia dito, resolveu exaltar que o país dele agora seria maravilhoso, pois acabara de eleger um presidente da direita, assim como o Brasil.

Um incômodo sepulcral se instalou. Encaramos ele, eu e ela, com a perplexidade de quem tenta entender um contorcionista chinês. Assentimos com a cabeça. E eu quase falei: mas nem estudando você entendeu, né? Quase falei...




Continuamos conversando, agora sobre tecnologia e internet, comunicação e como as coisas evoluem. Ela perguntou o que eu fazia, eu disse que era escritora. Ela ficou encantada. Expliquei que por isso eu me interessava por tudo, inclusive pela Bíblia. Continuamos a papear sobre livros e comentar sobre a demora no atendimento, pois já passava do meio-dia e estávamos lá desde as 8 da manhã.

O seminarista falou que queria rezar. Ela me perguntou se eu conhecia a reza, Eu não conhecia, mas ouvi e repeti as partes que eu pude compreender.


Havia uma TV na sala de espera. De tempos em tempos nos distraíamos com as notícias. Afinal, foram longas horas de espera. Diana Ross fez 75 anos e passou uma reportagem sobre sua carreira. Eu conhecia algumas músicas e a freira também. Começamos a cantar e ela até deu um agudinho…


Pelo visto, nunca houve nada de errado com a minha referência em freiras.

Amém.


Março de 2019

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