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O FUNCIONÁRIO DA LIGHT

  • 10 de mar. de 2021
  • 2 min de leitura

Um homem mau encarado empregado pela companhia elétrica que fornece o serviço mais caro do país, a energia elétrica da LIGHT, passou ainda há pouco pela recepção. Enquanto aguardava ser atendido, ele gravou um áudio de whatsapp usando as seguintes palavras: Bem feito, corta mesmo a luz dela, tem que cortar. Quer morar em Copacabana e não pagar conta de luz? Quer morar na zona sul sendo que não pode?

Fechou o celular e disse a mim: né não, colega? Essa gente quer viver do que não tem.


Imediatamente fechei a cara e não respondi, pois havia outros clientes na recepção, mas eu queria dizer: E alguém ainda tem, moço?

No meio de uma das maiores crises da história, com um governo irresponsável, milhares de mortos por dia e uma das maiores altas de desemprego já vistas no nosso país, não estamos isentos de contas altíssimas de serviços básicos como a da sanguessuga LIGHT e o IPTU ridículo cobrado pela prefeitura. Não estamos isentos da necessidade de comida, medicamentos e, bem, tudo, né... Seja pobre, classe média e até os ricos, no Rio de janeiro, todo mundo se fudeu nem que fosse um pouco.

Enquanto muitos confundem privilégio com o mínimo de dignidade, outros continuam fazendo “gatos” na fiação com o bom e velho jeitinho brasileiro... É um eterno tanto faz.


Ainda arrisco dizer que no mínimo metade do bairro de Copacabana é ocupada por moradores de um aluguel abusivo que visa equilibrar o gasto ainda mais abusivo de transporte público e gasolina. Adianta morar num bairro mais afastado do centro e precisar pagar mais de vinte reais por dia só para transitar e procurar um emprego? Muitos se sacrificam para morar num bairro onde você não tem medo de tomar um tiro ou ser assaltado a cada 5 minutos. A escolha é bem difícil. Entre comer ou morrer ou ambos?


E, logo agora que muitas empresas fecharam ou estão em recuperação judicial, o que restava da classe média está à míngua em edifícios antigos, enquanto quem era pobre, mas ainda tinha alguma dignidade, virou a quantidade exorbitante de moradores de rua impossíveis de ignorar. O mundo mudou, seu moço…abra seus olhos! (era o que eu queria dizer)


O centro da cidade virou um mausoléu de prédios vazios que só agora estão recebendo propostas para virar moradias mais acessíveis para a classe média baixa que já não tem condições de morar na área nobre ou sequer existir. Mas e os pobres? O que fazem para sobreviver aqueles que já não conseguem comprar nem o mínimo? Pare de falar merda, homem! (era o que eu queria dizer)


Um ser embrutecido com pensamento grotesco e sem o mínimo de treinamento para empatia num momento tão difícil, enquanto isso, a Light ainda demonstra péssima gestão interna ao enviar, no meio de um lockdown, dois funcionários para cortar a luz de um apartamento com todas as contas pagas. Hoje ainda enviaram esse “fiscal” para vistoriar o referido corte (que não chegou a ser feito), e agora há pouco, enquanto eu escrevia esta crônica, chegaram aqui mais dois funcionários para fazer a religação desse mesmo apartamento cuja luz, ao contrário da luz do fim do túnel, nunca nem chegou a apagar.



Março de 2021


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