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ESTATÍSTICA DESAFIADORA

  • 30 de mar. de 2018
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias


A experiência tragicômica de uma cidadã no site do IBGE.

Fonte: https://pt.vecteezy.com/
Fonte: https://pt.vecteezy.com/

Fui aprovada como redatora de um site que até agora não sei ao certo como se pronuncia o nome. Toda animada, comecei a escrever meu primeiro artigo ciente de que estaria sendo remunerada por cliques e que teria que escolher assuntos que já estão na mídia e nos trending topings para poder receber uma mixaria em troca.

A aprovação veio às nove da noite e comecei meu primeiro artigo antes das dez. Dei sorte que uma série nova tinha lançado na internet e ataquei de cinéfila traduzindo uma entrevista com a atriz da trama. Não satisfeita ainda tive a cara de pau de fazer uma rápida publicação sobre uma socialite carioca, afinal eu precisaria de muitos cliques para poder pagar aquele rodízio de comida japonesa que estava desejando há semanas...


No dia seguinte, a surpresa, os dois artigos bobos obtiveram muito mais cliques do que o esperado e eu já tinha mais de dez reais acumulados. O que era muito pra quem tinha usado o último rolo papel higiênico dois dias antes, e estava fazendo uso paninhos para se secar do xixi.

Nossa, seria eu capaz de viver disso? Pensei. E logo um clima de euforia tomaria conta da pessoa que inadvertidamente passou a se considerar, além de escritora, uma jornalista e sorria como se tivesse ganhado o Pulitzer.

Em seguida, a crise de ética. O artigo sobre a socialite havia gerado o triplo de cliques que o artigo sobre a série nova, e senti que, em breve, estaria criando manchetes sensacionalistas e vendendo minha alma em troca de peixe cru.

Será que a vida de jornalista é isso? Tentei não me desestabilizar, pois estava feliz demais com minha mais nova empreitada para isso. E tratei de procurar outro assunto que desse uma boa matéria.


Encontrei meu tema num jornal grande. O título da manchete me deixava irritada, o conteúdo, escasso e antiquado, mais ainda. Vou arrasar com esse tema; vai ser agora, pensei. Mexeu com a educação brasileira, mexeu comigo. Coitada, insana.

Subi no meu palanque emocional e comecei por falar mal das prioridades do povo e resolvi atacar as estatísticas.

Lá fui eu inocentemente acessar pela primeira vez o site do IBGE.

Parecia simples: pesquisar na lista de assuntos, clicar no que eu queria e ser feliz.

Não era: para acessar os dados de levantamento do censo e das pesquisas nacionais desde dois mil e dois, é necessário fazer o download de uma pasta que contém diversos arquivos sem descrição alguma, nomenclatura ou indicação do que se tratam. É necessário abrir todos os arquivos da pasta até encontrar a estatística desejada. Isso se a pessoa der sorte de encontrar o assunto na pesquisa do site. Os títulos dos temas das pesquisas não fazem muito sentido e até dificultam a compreensão do que a pessoa está procurando.


Quase uma hora depois voltei para meu artigo e é fonte pra cá, foto pra lá. Ajeita, corrige, acerta, corta e cola. Enfim, três horas depois do início do processo, minha obra de arte estava terminada. Publiquei no mural e aguardei a revisão. Sugeri que fosse colocada na parte de notícias do Brasil, mas pelo visto eles queriam outra abordagem insólita, machista e ultrapassada. Desculpa, não passarão. Reduziram meu texto à seção de opiniões e me senti ofendida, mas por pouco tempo, pois após mais dois reais caírem na conta, tudo ficou resolvido. Afinal, segundo as estatísticas, de grão em grão a galinha enche o papo.





Março de 2018

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