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AS RÉDEAS DA MINHA VIDA

  • 12 de jul. de 2020
  • 3 min de leitura


Dois anos sem emprego, um livro mal vendido e uma ideia muito escassa do que seria meu futuro, foram suficientes para tomar coragem de me mudar para a Colômbia com meu namorado, sem olhar para trás. Juntei dinheiro, comprei passagem e tomei posse do meu destino. Fui embora, e djá. Como se diz em Medellín.


Um ano na Colômbia me fez perceber que a vida não precisa ser miserável, ela pode ser só triste ou injusta, mas não precisa sempre ser miserável. Lá fora eu aprendi que é possível ter roupas e comida de qualidade ainda sendo um membro do proletariado. Eu triunfei, mas o preço foi o hiperfoco no trabalho e não perceber que eu poderia me divertir mais. Eu levei tudo muito a sério. Tudo tinha que ser perfeito, meus horários, meu dinheiro... Eu passei mais tempo arrumando as coisas do que realmente aproveitando... Aí veio a oportunidade de passar férias no Brasil. Imagine eu, linda, de chapéu, chegando no Santos Dumont num dia iluminado de fim de verão, para ser turista numa das cidades mais lindas do mundo? Eu nunca fui ao Cristo Redentor, e esse era meu momento. Compramos a passagens em dezembro. Mas a vida tinha outros planos...

No dia 10 de Março, ao pousarmos em terras Brasileiras já foi um Deus nos acuda com Rafa passando mal no aeroporto e tendo que ir para uma enfermaria, não bastasse isso, ficamos adoentados ao chegar no Rio também. Chegamos junto com outro ser que veio passar férias no Brasil, o Coronavírus.


No começo havia muitos memes e a maioria das pessoas não tinha fé que a doença fosse chegar ao Brasil, tampouco era algo que nem passava pela minha cabeça. Nem acreditei quando vi o Rafa com febre alta e tossindo, era algo surreal. Tentar encontrar remédios foi mais surreal ainda. No começo parecia que era só a gente que estava passando por aquilo, mas dez dias depois todo o comércio fechou e a quarentena oficial começou. Nesse dia nossas férias acabaram, e um pouco das nossas vidas acabou também. E lá vêm meses olhando pela janela e pela tevê, vendo o mundo se acabar e um filme de terror alastrar pelo planeta. Queria sim ser uma mosquinha no futuro ouvindo professores de história falando sobre 2020.

As fronteiras fecharam e nos demos conta de que talvez não conseguíssemos voltar para a Colômbia, nosso apartamento recém-mobilhado e um mundo de planos que nos aguardava em nosso novo lar. Eu não morria de amores pela Colômbia, mas era minha casa. E de uma maneira ou de outra, eu estava feliz. Dez de maio, não voltamos, fronteiras fechadas e torneiras abertas, nós só sabíamos chorar. O que fazer com o apartamento? O que fazer com nossas coisas? Para onde vamos? Ficamos. Mas fomos para um Hostel. Hora de clarear a mente, tomar uma decisão.

Não podemos ficar assim, decidimos, com as mentes remoídas dentro de casa há meses num paradoxo do que seriam férias. Demoramos o mês inteiro para tomar uma decisão e enfim compramos a passagem. Chega de sofrer. Chegar a aceitar derrota atrás de derrota. Vamos embora do Rio


Oito de maio. Dia de renovar as energias, dia de me encapuzar com plástico, máscara e muito álcool em gel e tomar as rédeas da minha vida.

No caminho, algo estranho aconteceu, o céu se fechou por inteiro, deixando tudo branco e então veio uma chuva torrencial. Vamos chegar em Salvador com tudo lavado, pensei, pode limpar, limpa a gente também!

Essa limpeza foi tão forte que não conseguimos pousar e acabamos parando em Aracaju para esperar a chuva diminuir. Dois dias depois, o céu se abriu e finalmente eu estava num novo lugar. Seja bem-vinda a Salvador.

As coisas ainda mudaram muito e o mundo deu muitas voltas, mas naquela semana eu tomei as rédeas da minha vida.


Julho de 2020

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