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SÉRIE: ANEDOTAS - O SILÊNCIO ENTRE MULHERES

  • 27 de jul. de 2018
  • 2 min de leitura

Sobre as pequenas guerras silenciosas do feminismo.



Foram nove dias fingindo ser pessoa padrão no emprego novo, daí ja temos uma não e quanto tempo eu duraria no BBB. Ninguém falava muito, éramos eu e duas moças evangélicas na recepção. Numa terça-feira, tiveram a pachorra de parabenizar (na minha frente) um rapaz por chegar em casa e lavar a própria roupa, visto que a esposa dele estava em casa sozinha no puerpério cuidando de um filho recém-nascido... Eu não sabia quem era pior, o cristão que tava se orgulhando como se aquilo fosse um feito ou as varoas que já tinham perdido o senso do ridículo há muito tempo. Eu não aguentei, foi mais forte do que eu. Tive que comentar o absurdo que era elas parabenizarem aquilo. Elas se defenderam dizendo que era pra incentivar o bom comportamento, pois quase não existem homens assim. Retruquei dizendo que conheço muitos homens que são perfeitamente capazes de perceber o ambiente ao seu redor e fazer sua parte, não são homens perfeitos, mas em qualquer casa todo mundo tem que fazer sua parte, né?

Elas me explicaram que o normal era o homem não fazer nada, já que a mulher não trabalha. Eu disse que tratar aquilo com normalidade era o que permitia que isso acontecesse nos lares, e que aquilo era na realidade um absurdo. Você sabe o que é cuidar de um recém-nascido?

O clima ficou tenso, mas ambas fizeram cara de deboche e deram de ombros, voltando ao serviço. Lá, ficaram mudas; ninguém respondeu. Ficamos em silêncio, à sombra do meu feminismo, e ninguém nunca mais deu um pio na recepção até o final da semana.


Dias depois, comecei a ler o jornal para passar o tempo e, o silêncio; faço comentários avulsos em voz alta e rio sozinha das barbaridades que leio.


Eu bebia goles de chá, volta e meia, direcionava um ou outro dos meus comentários para a colega emudecida que sobrara sentada ao meu lado. A outra estava de férias e essa era a que raramente eu via tirar os olhos vidrados do celular para assimilar qualquer coisa que não fosse direcionada diretamente a ela.

Falei uma coisa qualquer, juro que era sobre algo trivial e engraçado o suficiente para comentar. Ela murmurou algo em ciência da minha vontade de interagir. Pensei, esse é o meu momento, é agora que vamos voltar a falar. Chega de silêncio. Ela vai dizer algo, tenho certeza! Ela levantou a cabeça e me olhou profundamente...

Uma flâmula de esperança acendeu-se rapidamente em meu coração e em seguida se apagou, quando percebi que ela só estava esticando o pescoço para se ajeitar melhor na cadeira. Seguimos em silêncio.



Julho de 2018



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