SÉRIE: ANEDOTAS - A MULHER PENEIRA
- 25 de jul. de 2018
- 2 min de leitura
Uma anedota sobre piercings e estigmas!

Fiz o meu primeiro piercing oficial num estúdio esterilizado, com um profissional capacitado, quando tinha doze anos. O moço furou a cartilagem da orelha que era o único lugar do meu corpo que ele podia tocar sem o consentimento de um responsável.
Antes disso, foram diversas tentativas com brincos alcoolizados e agulhas queimadas para adornar meu corpo que ainda não tinha idade para mandar em si.
Depois que aprendi como funcionava o cateter, seguiu-se uma sequência de festinhas desastrosas onde eu e meus amigos mais corajosos nos desafiávamos a furar uns aos outros como um ritual tribal. Até o fim da adolescência eu tive piercing na sobrancelha, no queixo, na mão, no umbigo e mais uma dúzia de brincos nas orelhas... Meu objetivo, desde os seis anos de idade era furar a língua como a cantora Mel B, que exibia sua joia logo no início do filme Spice World.
Realizei este sonho pouco depois de completar a maioridade, uma das minhas maiores realizações pessoais, diga-se de passagem. Parei com os piercings por ali, restando apenas o da cartilagem e o da língua, os símbolos da minha trajetória.
Alguns anos se passaram até que eu achasse que faltava algo no meu rosto novamente e tomei a decisão de perfurar o nariz, algo que para mim seria inédito. Aproveitei uma sessão de tatuagens do meu então companheiro para fazer o tal furo no mesmo estúdio e saí de lá me sentindo um pouco mais completa e também um pouco mais esburacada.
Admirei-me no espelho por dias e tirei umas mil fotos. Hoje em dia eu gosto até mais desse que dos outros. Uma semana depois do furo fui visitar a minha mãe que não me via há alguns meses.
Era verão e eu estava sentada no chão do quarto de pernas cruzadas com o ventilador na minha frente quando ela chegou do trabalho e foi me cumprimentar, no que estiquei o pescoço para elevar o rosto, abri um sorriso gigante e disse – olha, mãe, eu fiz um piercing novo!
Recordando-se traumatizadamente dos tempos em que era mãe de uma peneira em formato de filha, das centenas de piercings e bolinhas espalhadas pela casa, ela olhou para mim de cima a baixo duas vezes, não viu nada de diferente, parou na calcinha e disse:
– Eu não acredito, Vanessa, que dessa vez você furou a perereca!
Julho de 2018




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