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SÉRIE: ANEDOTAS - O FISCAL DO SUTIÃ

  • 24 de jul. de 2018
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias


Quanto simbolismo pode existir em uma única peça de vestuário?


Eu era bem menina ainda, e estava passando férias na casa de meu pai quando um dia ele me interrompeu à porta dizendo que a blusa que eu vestia estava transparente e indecente e pediu que eu colocasse um sutiã. Eu respondi que eu não tinha e foi assim que, às oito da noite de um domingo, nos vimos perdidos entre as fileiras do Walmart à procura do que seria o meu primeiro sutiã.

Minha tia me ensinou que era para manter os peitos no lugar e reforçava ainda mais a necessidade, dando como exemplo a coluna: – Sua prima não gosta de sutiã e está ficando corcunda! – Nunca retruquei.

Só passei a desconfiar do aprendizado no dia em que a Angelina Jolie me seduziu interpretando a mocinha selvagem em Sob o luar do deserto. Não me lembro da história do filme, mas jamais me esqueci da camisetinha azul cujo pano maleável delineava o formato dos seios que deixavam clara a ausência do sutiã enquanto eles balançavam suavemente durante seu caminhar. Aquilo foi uma das coisas mais sensuais que eu vi em toda a minha vida. Se fosse tão errado assim ficar sem sutiã, não passava na televisão, pensei.


As feministas queimavam os sutiãs. No carnaval, as moças saem peladas na avenida com adesivos nos mamilos e em Saint-Tropez se faz topless. Até aí, tudo bem, mas não eram os meus; é que não iam pra rolo. Nunca me senti confiante o suficiente para simplesmente sair de casa sem aquela leve pressão torácica que me lembrava da minha condição de mulher, peituda e vítima do capitalismo patriarcal.


Cresci assim e meus questionamentos sobre colete à prova de liberdade tiveram que ficar para um amanhã que tardou para chegar até que numa fatídica tarde de outono, com quase 28 anos de idade, anunciei para minha amiga, Amália, que naquele dia eu iria sair pela primeira vez sem sutiã.

Era uma grande superação, eu estava me sentindo mega empoderada e pronta para encarar uma nova experiência feminina!

Ela riu e disse que fazia isso sempre, o que caiu como um banho de água fria no meu sucesso! No que eu retruquei – também pudera, se eu carregasse duas bolinhas de ping-pong ao invés de melancias, tampouco me daria o trabalho. – E sai de peito estufado, sem sutiã!


Coloquei uma camiseta e nada mais. Me senti gente, que nem homem, livre. Será que é assim que eles se sentem todos os dias? Pensei. Consertei minha postura e desbravei as ruas do Rio de Janeiro com os seios cobertos apenas por um pano de algodão estampado com caveiras. Obriguei-me a manter a coluna ereta o tempo todo enquanto pensava na coluna da minha prima, e toda vez que alguém me olhava mais que o normal, eu me perguntava se aquela camiseta estaria transparente, o que me fazia suar descomunalmente e em pouco tempo a blusa estava ensopada de suor.


Suor este que não encontrou uma barreira de sutiã para contê-lo e descia pela minha barriga, já umidecendo a camisa e emudecendo minha autoestima. Cheguei em casa arrasada e melequenta, como se estivesse voltando da guerra, mas eu só tinha ido comprar um maço de cigarro. Não levei nem 10 minutos.


Na volta liguei para minha amiga: - Amália, eu sempre tive medo de sair sem sutiã, pra mim, isso é algo que não se faz, errado mesmo. Como se eu fosse sair de casa e dar de cara com um fiscal da prefeitura de maquininha em mãos, pronto para me multar. Cinco pontos na carteira por sair sem sutiã, senhora, e mais três pela blusa semitransparente, multa de quinhentos reais. Tá suando? Tem acréscimo de vinte!


No que a minha amiga baiana respondeu – Pois esse fiscal tá lascado comigo. Se for assim, já eu tô com nome sujo e mandado de prisão, Vanessa! Pra você ter uma noção, eu não lavei roupa e essa semana eu tô sem uma calcinha pra usar!



Julho de 2018




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